SOBRE A VIOLA E O VIOLEIRO

"..Pois pro cantador e violeiro
Só há três coisas nesse mundo vão
Viola, forria, amor, dinheiro não" Elomar

Sou violeiro nas horas vagas. De quando em vez, principalmente naqueles momentos em que os demônios da cidade-grande me assaltam, deixo sair das cordas da viola um cenário bucólico, quase extinto, mas santificado pelos cantadores: o ar puro das invernadas com cabras pastando solenemente, os carros de boi gemendo no estradão, o fogão de lenha onde o café é adoçado com garapa. Com alguns ponteados a mais, começam também a sair do pinho cenas de manhãs solfejadas por pássaros, cafezais em flor se vestindo como noivas, currais com afrodisíacos cheiros de vaca e os caudalosos rios com molecada nadando do jeito que veio ao nosso-mundo-sem-porteira.
Confesso que,com minhas toadas inspiradas nestes motes,consigo despertar coisas belas e adormecidas neste corpo oprimido. Consigo também exorcizartemporariamente, aos moldes de Guimarães Rosa, o Cão em suas multiformes aparições.Mais que isso, consigo ainda, sorrir com esperança, cantarolando um salmo em som de cateretê que aprendi do Rolando Boldrin: “Eu vim me embora e na hora cantou um passarinho, porque eu vim sozinho, eu, a viola e Deus ...Vim parando assustado espantado com as pedras do caminho, eu , a viola e Deus... ”

(Pro Luiz Longuini, caipira amigo, cuja mãe foi para o céu ouvir meu pai tocar viola)

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