XXIII - SOBRE A ARTE DE JOGAR CONVERSA FORA

As palavras são o que somos, o que sonhamos, o que amamos.

Na pracinha, perto de casa, reúne-se toda tarde, gente da chamada “melhor idade”. Seus rostos e risos dizem que é um pessoal feliz. Jogam bochas, jogam cartas, jogam palito e, principalmente, jogam conversas fora. Vou lá para ouvi-los.
Jogar conversa fora é uma arte.
Quem quiser ali, fazer parte desse esporte, tem que saber as regras: tempo de falar, tempo de ouvir... A troca de histórias tem que descartar a troca de qualquer agressão. Ninguém pode ser dono da verdade, pois a palavra maior é a bondade.
Tenho ido lá para ouvi-los.
Interessante notar que, com palavras, eles constroem uma avenida por onde desfilam, triunfalmente, criaturas fantásticas, personagens soturnos, bichos escatológicos, proezas amorosas, pescas miraculosas, heróis exóticos e enredos que só o Guimarães Rosa saberia decodificar.
Ninguém é chamado de mentiroso pois não está em jogo a verdade, e sim a amizade.
Aquela gente boa é uma espécie de parábola viva para nosso mundo rico-em-informação-e-pobre-em-imaginação. Um mundo que se esqueceu que é na conversa “ tête-à-tête”, “olho-no-olho”, que tudo o que é bom se efetiva na vida. Aquela gente amiga é uma denúncia contundente para um mundo que fez dos meios de comunicação verdadeiros meios de separação.
Quando vejo casais, sem diálogo, vivendo uma solidão a dois ou quando vejo crianças sendo escravizadas pela ditadura da televisão, fico com vontade de criar uma ONG chamada Sociedade dos Contadores de Causos.
Aqueles meus vizinhos serão meus consultores.

(Para meu pai que sabia contar causos)

Carlos Alberto Rodrigues Alves

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