XXVI - SOBRE O SARAU RURAL NA CASA DO DR.MARCOS

Como amanhã tem rodada de viola na casa dos Silva e Borges, mineiros da mais pura cepa, retirei um fragmento de uma crônica minha para homenagear esses amigos de peito:

O EVANGELHO SEGUNDO OS VIOLEIROS

(...) Precisamos colocar uma pitadinha de misticismo neste proseio. Não podemos perambular pelos sertões e veredas do sagrado sem recebermos a bênção do Riobaldo: “Medo, mistério. O Senhor não vê? O que não é Deus é estado de demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver”.

Este personagem de Guimarães Rosa dá o tom de um outro tema que está nestas modas. Falo do tema de uma peleja cósmica. Quando Deus e o diabo travam peleja estremecendo esta terra de sol e de chuva, há sempre um violeiro para harpejar o confronto. Este duelo celeste tem ecos em desafios terrestres.

Há quem jura de pé junto que violeiro bom é aquele que fez pacto com o Coisa-ruim. Dizem que são aqueles que tocam em uma afinação chamada “rio abaixo”. Referência ao tinhoso que um dia teria aparecido tocando viola, com virtuosismo, lá pelas águas sertanejas do norte das Gerais. Até existe, pelas bandas do Urucuia, um bocado de causos que falam sobre viola tocando sozinha em cima de mesas.

Eu, heim? Minha afinação é o “cebolão. Tem esse nome porque faz gente, do campo e da cidade, chorar. Sou da turma do São Gonçalo, o padroeiro dos violeiros! Santo bom este! Adorado por Tião Carreiro e Pardinho, reis do pagode, que , em vários de seus “sarmos cantados”, nos alertam a uma tomada de partido nesta eterna luta do bem contra o mal:

Quem foi o rei do baralho virou trouxa na roleta
Gavião que pegava cobra, já foge de borboleta
Se o Picasso fosse vivo ia pintar tabuleta
Bezerrada de gravata que se cuide não se meta
Quem mamava no governo agora secou a teta
A coisa tá feia, a coisa ta preta...
Quem não for filho de Deus, tá na unha do capeta.

Por isso e por tantos ponteios que fazem variações sobre a vida e a morte é que eu faço minha final louvação: Viva o sagrado som rural! Viva o nosso santo “forcrório”! Viva os sacerdotes da viola! Viva a famiarada do Marcão.

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