XLI - SOBRE MEU PAI E UMA ILUSTRÍSSIMA VISITA

Eu que nasci para ser “ gauche” na vida, nunca vou me esquecer da visão pragmática que meu pai tinha da política local. Nem de sua inteligência intra-pessoal ao dizer que um voto eleitoral é afetivo antes de ser ideológico.

Estória que me contaram:

Numa dessas semanas em que meu velho agonizava um de seus mil-e-um-calvários, chegou lá em casa com seu sorriso e voz indisfarçáveis, sem avisos e sem cerimoniais, o senhor Paulo Salim Maluf. Isso mesmo, o Maluf ! Homem público, conhecido entre “tantas coisas”, pela sua enciclopédica memória-de-quem-sabe-fazer-amigos-e-influenciar-pessoas.

Sem qualquer parcimônia, esse antológico cidadão, foi aos poucos e triunfalmente, adentrando nossa casinha simples, até chegar ao quarto onde meu pai, esperava todos os dias, com nobreza, o seu momento derradeiro de bater na porta do céu.

Maluf, com sua aura de cacique e com sua multimídia epifania, chegava em casa para uma solidária visita a meu pai.

- “Ô doutor Maluf”! Aclamou meu velho, surpreso por ilustre presença. “ O senhor aqui na casa do Zito! Quanta honra” !

Ao que o folclórico parlamentar, sem pestanejar, respondeu: - “ Zito não! O Senhor é o João Baptista Rodrigues Alves, excelentíssimo presidente do meu partido nesta maravilhosa cidade!”

Ao ser assim saudado, meu bom e velho pai, de imediato, mesmo sem acreditar na sinceridade de tamanha homenagem, ficou bom das pernas e, depois de encerrada a ilustre visita, passou a caminhar rejuvenescido e feliz pela cidade.

Eu que nunca votei no Maluf, desde então parei de falar mal dele.

Carlos Alberto Rodrigues Alves

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