LVII - SOB O SIGNO SAGRADO DE MARTE


Noite de lua nova em Araguari... Belo cenário resultado da conjunção-de-energia astral-e-incandescente do planeta Marte. Os seresteiros-mineiros saem pelas ruas da cidade inspirados pelo charme político-romântico de JK. Era final dos anos 50!

Reza a lenda que no meio deste reboliço cantante, um cavaleiro templário conhecido como mestre Jonas, inspira-se numa liturgia não-ortodoxa para homenagear seu filho primogênito, recém-chegado ao nosso mundo-vil.

Depois do ritual regado por charutos e papos-platônicos-quase-verdadeiros (coisa a que tem direito todo pai fresco-e-feliz) esse renomado líder de um clã sacerdotal, buscou o auxílio luxuoso dos arcanos do tarô. Missão: esquadrinhar um pouco das linhas histórico-futurístas do esperado rebento, sua mais completa tradução.

Daquela sessão, foi revelado um pouco dos mistérios a este aprendiz.

Cena primeira:

Sobre a mesa é tombada uma carta com o retrato da Justiça. Com seu detalhe emblemático! A figura é uma mulher com olhos abertos, bem diferente da Têmis, deusa grega de olhos vendados! Conclusão da taróloga:- Teu filho será a própria representação do equilíbrio e da moderação. A espada que se apresenta diante dos olhos representa a capacidade que ele terá de apontar para um julgamento que lembra Salomão. Para ele a justiça jamais será cega.

Cena segunda:

Aparece no carteado a figura dos Enamorados. Desvenda-se um enigma! Entre as mulheres está em destaque a bela e sábia loira. Ela irá tocar de forma mágica, um coração amigo-amante-devoto-de-um-aconhego-larário. Conclusão da vidente:- Teu filho, viverá um amor idílico. Serão declarados mais que marido-e-mulher. Serão filhos-de-Deus-filhos-da-vida-filhos-da-liberdade-filhos-da-ternura. Ao casal será devotada uma herança magna: dois filhos que só não serão perfeitos porque escolherão times errados para lhes devotar a pobre e inútil paixão.

Cena terceira:

Cai a carta do poder eclesiástico. A figura do Papa se faz iluminar no cenário da consulente. Mestre Jonas faz cara de preocupação. Será um filho devoto das hostes inquisitoriais? Um presidente do Supremo Concílio de Trento? Um Ratzinger protestante? Nesta hora uma profecia branda como a brisa é pronunciada em forma de oráculo:- Não se preocupe amigo do bem, do bom e do belo! A história do mineirim já está escrito nas estrelas e como, predestinado, trará em seu nome as letras sagradas de um guerreiro da paz:

Motivador Amigo Ridente Companheiro Otimista Sonhador

Feliz, nosso seresteiro voltou para a casa contando essas coisas pelo caminho e cantarolando os versos do salmista:

“Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe, e no teu livro todas estas coisas foram escritas , sendo formadas, quando nem ainda uma delas havia.”

Dona Waldete, tal como uma mãe do salvador, guardava todas essas coisas no seu coração.

O dia era 9. O ano era 1959.

As águas de março ainda não haviam fechado o verão.

Sob o signo sagrado de Marte, Marcos estava chegando à Terra.

(OBS : Carlos Alberto, autor, é membro do Centro de Letras e Conselheiro do Conselho Estadual de Educação do Paraná. Portanto goza de imunidade frente aos fundamentalistas caçadores de heresias).


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