LXXXIV - " TUDO QUE MOVE É SAGRADO"

Hoje, quando saímos de um eucarístico-restaurante-de-amigos, vi duas pessoas numa acalorada discussão bizantina.

Um defendia, fervorosamente, que ao morrer a pessoa fica consciente em alguma dimensão do universo. Outra contra-argumentava , com igual eloquência, assegurando que a alma de quem parte para outra vida fica inconsciente.

Aos poucos, vi que o cenário foi se tornando um ringue religioso com direito a nocautes técnicos. Contive meu riso e reafirmei, silenciosamente, minha crença no que penso das coisas sagradas.

Para mim a religiosidade nada tem a ver com a temperatura do inferno ou com a mobília do céu. Nem com anjos, demônios e seus coadjuvantes. Quem precisa dessas entidades para viver, vive sob o signo do medo.

O sagrado não me evoca medo e sim beleza. O sagrado que me traz a experiência do divino está na eternidade de coisas fugazes. Essas coisas meu coração deseja que vivam para sempre:

o repique de uma viola saboreada com os palavrórios etéreos de Guimarães Rosa;

o silêncio contundente e místico de uma lua cheia;

a alegria incondicional de minha cachorrinha quando me vê;

o “jogar conversa fora” de amigos que inventam papos para driblar o tédio;

os beijos sempre vivificantes e benfazejos que recebo da mulher-e-dos-filhinhos-mesmo-quando-não-tem-franguinho-na panela;

e assim, tantas outras felicidades...

Bela é a canção de Beto Guedes: “ Tudo que move é sagrado”. A qual eu acrescentaria: Existem mais coisas sagradas entre o céu e a terra do que nossa vã religião possa supor.


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