XCVIII - SOBRE A ARTE DE SABER OUVIR

Deus mora em nosso silêncio. Mais precisamente, na nossa capacidade de saber ouvir. Aprendi isso com irmãos trapistas, num mosteiro onde só se escuta as estrelas, os sinos nas horas marcadas, a leitura dos salmos e o canto gregoriano.
Que contraste com nosso mundo sinfonizado por ruídos ensurdecedores! Que contraste com nosso mundo onde a fala vale mais que o escutar!
Dia desses, eu estava na diplomação de algumas autoridades políticas. Antes da coroação dos mesmos, a Orquestra Sinfônica brindou o público com a Sonata ao Luar de Beethoven. Magnífico! Porém, durante a execução, dois poderosos coronéis modernos, digladiavam-se numa discussão, para ver quem sabia mais sobre a sinfonia e seu autor. Que coisa desafinada!
Posso compreender porque os pianistas esperam o silêncio da platéia para iniciar seu concerto. É que Deus se faz ouvir com música e para isso é preciso saber ouvir.
Por isso defendo João Gilberto que vai-se embora do palco quando o público não fica em silêncio.
Não quero o silêncio dos cemitérios. Este não é inspirador. Tão pouco quero o silêncio dos casais que não conversam para não brigar. Esse silêncio é sepulcral!
Mario Quintana assim canta sobre o tema em pauta:

Há um silêncio de antes de abrir-se um telegrama urgente
Há um silêncio de um primeiro olhar de desejo
Há um silêncio trêmulo de teias ao apanhar uma mosca
… e o silêncio de uma lápide que ninguém lê.


Eu quero " o silêncio das línguas cansadas..." para ouvir a voz de um anjo a sussurar em meus ouvidos... igual aquele que está no site abaixo

http://www.youtube.com/watch?v=fd3a189vcVc

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