109 - CARTA A MINHA PRIMA LUCELI

Querida Lu:
Já retornei de Itatinga, “Presépio da Serra”, cidade para a qual escrevi a letra de seu hino oficial. Cidade onde você, quando foge de São Paulo, desfila triunfalmente, o seu belo carrão.
Sempre que posso vou lá. É bom visitar a terra da qual a gente é historicamente feito. É prazeroso respirar o mesmo ar com aqueles que, ao nosso lado, foram embalados para a vida.
Mãe, irmãos, sobrinhos, agregados, todos ao redor do fogo brincando, xingando, contando causos... A picanha, o bolo de fubá, a viola, o café do bule...Bela cena de aconchego! Bela inspiração para nossa vida cada vez mais fragmentada!
Mas, apesar da alegria do reencontro ficou um vazio irrecuperável: uma saudade que “corta como aço de navalha”, uma “saudade que mata a gente”. Saudade que atende pelo nome de “meu pai”, ou para você “meu tio”!
Sei que você também tem saudade de quem tanto te emprestou o ombro da solidariedade e os olhos de esperança...Como posso esquecer sua viagem para as Gerais afim de celebrar, com teus pais, tua vinda ao mundo?
Pois é prima:
“ Naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele tá doendo em mim...”
Fui até o túmulo que lhe mandei fazer. Quando um toró de lágrimas se formou para vir à tona, deixei-me ser hipnotizado pela sua foto estampada no alto da tumba: cabeça altiva, olhar de dignidade, rosto resistente ao tempo, e a sua expressão mais forte como que a me dizer: “Vai viver sua vida meu filho”!
Enxuguei a lágrima teimosa, levantei a cabeça e saí correndo para abraçar meu "povo" que estava vindo ao meu encontro. De fato, “ há tanta vida lá fora” para comprovar que meu pai não morreu...Ele ficou encantado para sempre nos olhos do Giovani, do Kauan e da Giulia...
Ainda não foi dessa vez, mas vou cumprir a promessa que fiz a este violeiro, de colocar no seu túmulo as palavras sérias e ridentes: Aqui jaz um homem muito a contragosto.

beijos

Carlinho do Zito


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