121 - A VIOLA DO MEU PAI

Está no meu ranchinho, bem guardadinha, uma viola especial. Não tem a nobreza da Maria Deodorina, nem o astral da Tereza. Aliás, estas são bem casadas com seus respectivos sinhozinhos-poetas-amantes .
Minha viola nem nome de batismo tem... Mas ela é especial por ter uma mística que a faz transcender os tempos e os templos sacerdotais...Os cantos-e-os-contos dos contadores-de-causos. Mandei fazê-la, daquelas boas madeiras que só as luas-minguantes sabem fecundar-com-seu-feitiço...Coisas-e-segredos-de-alquimia!!!
Eu queria, muito, presentear meu velho pai, violeiro dos bons...Daqueles de ouvido absoluto. Porém...ah!, porém... quando o Marco da Viola, nosso luthier, me entregou a “menina-com-todas-as-suas-dignidades” para ir chorar nos braços do meu velho, foi eu quem chorou primeiro.
É que meu pai havia partido para a-terra-do-sem-fim bem antes do combinado.
Por isso, minha viola é especial: suas cordas são fios de nostalgia-da-mais-pura-cepa...Ali eu posso ouvir o som que faz falta a esta minha alma rebelde e fugidia. No seu tampo sinto um colo onde aconchego meu corpo oprimido.

Como teria sido o casamento dela com o meu-mais-virtuoso-violeiro? Somente os bons violeiros saberiam dizer... E isso, só depois de acarinhar os braços dessa-saudosa-sem-nome.
Não deixo qualquer um encostar a mão nela. Ela foi santificada para ser possuída por sons angelicais. Foi oferecida em um altar-especial para quem, agora, mora perto do “Zé-Côco-do-Riachão”.

Sempre pensei que uma das missões do violeiro é ser possuído por querubins celestiais para fazer com que a dor dos mortais pudesse se tornar uma bela coreografia à luz da lua cheia.
Assim também pensava meu pai, cujo último momento, foi belo como um por-do-sol e como um “trenzinho-do-caipira” adentrando as matas...
Que as notas que gotejarem dela sejam, portanto, assim também...
Angelim-da-Maria-Deodorina e Cláudio-da-Tereza: Vocês serão bem-vindos para batizar essa menina chorosa.

(Para meu tio Laurindo, irmão de violeiro)

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