140 - SOBRE O DIREITO DE VIVER...E DE MORRER

Faz parte da minha pastoral urbana visitar leitos hospitalares.
É bom saber que um dia poderei ser aprovado naquele critério “estive doente e me visitaste...”
Mas, melhor ainda, é ver despertadas no coração dos morimbundos, a dignidade da vida e a certeza de que viver vale a pena.
Porém, não devo romantizar nossas casas-de-misericórdia, cenário onde, regularmente, visto-me de doutor-da-alegria e faço minhas orações.
Ali também encontro pessoas, se é que posso dizer “ pessoas”, que, em nome de uma pretensa ética médica e de uma religiosidade rasteira, há anos encontram-se invadidas por tubulações, presas por fios, monitores e uma horrenda parafernália de instrumentos responsáveis pelas batidas do coração.

Creio que, se seus corpos pudessem falar, citariam o texto de eclesiastes: “Há tempo para tudo debaixo do sol, tempo de nascer, tempo de morrer...” Depois completariam: “Por favor me deixem partir com dignidade”.
Impossível não lembrar Rubem Alves: A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia”.
De fato, se temos o direito de viver com dignidade, deveríamos ter também o direito de morrer com dignidade.

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