175 - SOBRE UM FOGÃO DE LENHA

Minha vó “nhá Nica”, mesmo depois do advento do fogão-a-gás, sempre conservou seu fogão-de-lenha em casa.
Essa tradição era-lhe uma questão sacramental pois o fogão, construído por meu avô Celestino, sempre foi para ela uma espécie de altar onde filhos, netos e agregados se reuniam para cultivar a alegria de viver.
Havia sempre um culto a vida diante dos símbolos sagrados da sua cozinha: o bule de café , as inconfundíveis panelas-de-ferro, as saudosas-colheres-de-pau...
Aquecidos pelo fogo vivo, a gente estreitava os laços que nos uniam como verdadeiros filhos da vida, filhos do amor, filhos da alegria. O fogo que ali "bruxuleava" era uma metáfora de um fogo que ardia nos corações e no compartilhar de nossas experiências.
Para isso, coisa comum eram nossos contos-de-causos, ritual com o qual espantávamos o medo e a tristeza. O pão era pouco mas a beleza se fazia presente.
Os anos deixaram marcas em nossos rostos e eu hoje, sem ser saudosista, queixo-me pelo fato da ciência e da tecnologia ter-nos tirado o encanto e o feitiço dessas coisas mais simples:
Ou alguém terá visto alguma família reunida em torno de um forno-de-micro-ondas para contar causos?

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