188 - MERCEDES, GRACIAS A LA VIDA!

Morreu Mercedes Sosa, a voz das veias abertas da América morena.
Cantora que fez os corpos de tantos amedrontados se mobilizarem para a resistência.
Nos pesados anos de chumbo, os generais optaram pela força do fuzil e entenderam, com razão, que suas músicas lhes eram mais perigosas que a luta armada. Por isso, trataram de prendê-la e deportá-la.
Erraram ao perceber que ela se tornaria ícone de “una hermana muy hermosa que se llama libertad”
Erraram também ao não imaginar que quanto mais as botas pesadas lhe espezinhavam, tanto mais forte ela deixava sair de sua voz e de seu bumbo-engajado, os versos e a alma do poeta :
“Os poderosos podem matar uma, duas ou três flores, mas não podem impedir a chegada da primavera”.
Assisti “la Negra” no teatro Guaíra, quando ela voltava de seu exílio em Paris e Madri. Período de redemocratização do Brasil. Período em que estavam voltando as flores. O teatro veio abaixo quando ela cantou


Yo tengo tantos hermanos
Que no los puedo contar
En el valle en la montaña
En la pampa y en el mar
Cada cual con sus trabajos
Con sus sueños cada cual
Con la esperanza delante
Con los recuerdos detrás
Yo tengo tantos hermanos
Que no los puedo contar


Morreu Mercedes Sosa, nessa primavera. Sua voz, porém, está mais florida que nunca!
Algumas de suas utopias se concretizaram. Outras ainda nascerão de suas canções, pois estas não poderão morrer jamais.
Eu que um dia vi esta guerreira ao vivo, continuo vendo-a e ouvindo-a toda vez que empunho meu violão para cantar a canção que traduz o seu nome: “Gracias a la vida que me há dado tanto...”!

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