191 - MEU PAI VAI VIRAR NOME DE PRAÇA

Os vereadores da minha cidade me pediram um texto para aprovar o projeto da praça do meu velho. Lá vai:

“O meu pai era paulista”. É assim que começa a música do Chico Buarque. É assim também que começo o breve relato de um itatinguense de coração, cuja trajetória histórica, foi ícone do poema guerreiro:
“A vida é combate, que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos, só pode exaltar...”
Nascido em Avaré, quis a Providência que ele fizesse sua história em nosso Presépio da Serra.
Seu nome de pia:João Baptista Rodrigues Alves. Nome que carregou com muita honra e dignidade. Seu nome de guerra: Zito. Apelido que lhe era igualmente caro, por fazer apresentar aos amigos sua identidade afetiva e bem humorada.

Quando menino, aprendeu os cantos da liberdade: as primeiras letras com sua mãe, a professora Leonor Soares Rodrigues Alves, e as primeiras notas musicais com seu pai, o virtuoso violonista Avelino Homem Alves.
Cresceu em meio aos latifúndios da redondeza, aprendeu a domar cavalos rebeldes, ensinou fazendeiros e capatazes, peregrinou pelas páginas de Alexandre Dumas, absorveu a visão crítica e política dos profetas, pregou a mensagem dos textos sagrados, construiu casas e abençoou lares...Enfim, em tudo que fez, jamais deixou de acreditar, como regra de vida, na religião da tolerância e do amor à vida.
Quando conheceu dona Aparecida Olinda, entendeu e atendeu prontamente os ensinamentos de Kalil Gibran:
Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados...
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
Como o vento devasta o jardim.
Do projeto familiar vieram-lhes 6 filhos, 17 netos, 4 bisnetos, afora os agregados que sempre iam a nossa casa em busca de bons conselhos ou dicas políticas. Nosso pão de cada dia era pouco mas sempre foi enriquecido com viola, ensinos do evangelho, e a certeza de que a vida vale a pena.
O Zito, que veio ao mundo no dia 31 de agosto de 1935, foi embora dia 24 de fevereiro de 2008. Cedo demais para quem tanto amava viver e para quem, um dia, confidenciou-nos em tom satírico um bordão que já se tornou popular:
“Quando eu morrer escrevam assim no meu túmulo:
´Aqui jaz um homem, muito a contra gosto'”.
Foram 72 anos em que sua inteligência e humor sempre falaram mais alto que as crises e as cruzes pelos quais passou. Sobre isso, seus amigos de praça e de contos de causos podem falar melhor...
Por tudo isso e muito mais, sua partida, embora triste, deixou marcas indeléveis, como um por do sol e como um trenzinho caipira adentrando nas matas... Marcas dignas de um guerreiro itatinguense que passou pela vida...e viveu!

(Dedicado à grande família Rodrigues Alves)

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