214 - SOBRE PEDRAS QUE NÃO SÃO PEDRAS


Contra a brutalidade dos fatos, nosso mundo precisa de encantamento, magia, beleza.
Pensando nisso fui ver e ouvir Adélia Prado, mulher maravilhosa que faz com suas palavras, verdadeiras catedrais.
No meio da conversa, com fala mansa, olhar terno, ela deixou escapar essa preciosidade:
”de vez em quanto Deus me castiga, pois quando eu olho pedras, só vejo pedras...”
Vi que alguns colegas riram um riso sem graça... Um ou outro fez um ar de “que coisa óbvia”! Estavam sintonizados num outro canal.
Passou-me pela cabeça que muita gente se nutre de uma espiritualidade matemática, previsível, sem criatividade:
Políticos tentam reduzir o mundo multicultural a simples esquemas de poder.
Religiosos-procuradores-da-divindade vivem mapeando o caminho do céu.
Economistas transformam em números frios a complexidade das relações humanas.
A vida não pode ser dissecada como o cientista faz com o rato.
A vida é um caleidoscópio para ser vista com todos os olhares.
Agradeço ao criador por não ter-me castigado...
Se aparecer alguma pedra no meio do meu caminho, mais do que já tenho, quero ver nelas alguma coisa que não seja pedra: algum altar, algum degrau, algum-sei-lá-o-quê!!!

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