221- SOBRE A RUA DA MINHA CASA

Estou para mudar de casa. Não sem uma pitada de romantismo!
É que a rua onde moro é folclórica, rica em imagens, como uma aquarela pintada em sete cores.

Rota de estudantes-caras-pintadas, caminho de atletas-cultuadores-do-corpo, passarela de vendedores-gritando-os-nomes-de-todos-os-bichos-do-zoológico, pista de ciclovia para os amantes-dos-ventos-sobre-os-ombros.
Sempre que posso, dou-me ao luxo de praticar um esporte-nem-sempre-valorizado, qual seja, ficar-fotografando-folgadamente, essas cenas comuns debaixo do céu.
Duas delas mereceram meus olhares-e-ouvidos nestes dias que antecedem minha partida:

Uma delas, inspirou-me a irritação:
Um caminhão de gás, impiedoso, chamava desafinadamente-em-alto-e-bom-som, a atenção dos moradores com a música “ Pour Elise”, de Ludowig van Beethoven. Senti tristeza! Impossível registrar minha agonia ao ouvir tão bela música em tão nefasta desarmonia. Beethoven, mesmo depois de morto, ainda deve chorar todas as vezes que a musiquinha se faz ecoar pelos ares.
Outra das cenas, inspirou-me a resignação:

Numa Kombi-branca , ao romper da aurora, um alegre velhinho ao volante, liberava suas cortas vocais no megafone , para proclamar como os arautos dos reis: “Olha o sonho freguesia! É o carro do sonho que está passando! Sonho de nata! Sonho de goiabada! É o sonho que está passando...”
Ao ouvir tal variedade de sonhos, senti que estava na hora de levantar e esquecer meus pesadelos.
Como disse a princípio, estou mudando.
Minha vida pode ser dura, mas não quero perder o romantismo dela jamais!

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