250 - SOBRE SANTOS REIS

“Hoje é dia da festa de Santo Reis” conforme vaticinava o, síndico-nada-cínico, Tim Maia.
Dia sagrado assim não pode passar batido. Principalmente se for para ressuscitar das cinzas nossos folguedos culturais.
Por conta desse tom festivo, tratei de me alistar como devoto-do-divino e engrossar uma comitiva da comunidade para os festejos ao Rei-que-nasceu-na-estrebaria.

Por conta desse tom musical, peguei minha viola, Claudião desensacou seu pinho, Mestre Jeremias, guarda municipal, esticou as cordas da rabeca e Joaninha enfeitou de fitas o seu pandeiro. Outros instrumentistas, alunos da escola da minha mulher, vieram com sanfona, cavaquinho e uma bandeira-mui-divina-e-graciosa.

E lá fomos nós caminhando e cantando, de forma improvisada, na rua-descalça do Bairro Novo... Adentrando casas-simples-sem-cadeiras-nas-calçadas, versando rimas-de-amor-com-dor e saudando o povo no ritmo dos novos tempos. Tudo em homenagem ao homem livre, à mesa farta, ao perdão sagrado e à fé infinita.

Não faltaram as orações para “as loucas, os lazarentos e as viúvas sem porvir”. Nem tão pouco para os desabrigados e para os desobrigados.
Cena de cinema! Cruzada santa-e-cantante-de-paz-e-justiça! Quem não sabia fazer preces, fixou tão-somente-e-mansamente, seu olhar no olhar das ovelhas sem pastor. Quem não tinha voz de rouxinol cantou com voz de galo mesmo!
Ao final da celebração, um saldo muito bom:- quilos de alimentos não perecíveis, pacotes de guloseimas, caixas de roupas e outros víveres que serão doados a uma creche. Os devotos sintonizaram seus corações com o coração do mestre: “ Tudo que fizerdes a um desses pequeninos, a mim o fizestes”!
Ninguém era rei, mas todos se tornaram irmãos do Grande-Rei com a bandeira seguindo em frente, atrás de melhores dias.

Como professor , a mim me cabe mergulhar e garimpar na cultura da nossa aldeia.
Como pastor, a mim me cabe sentir a alma do povo.
Como aprendiz-de-violeiro, a mim me cabe cantar a alegria de nossa gente.
Vai daí minha prece final:

Que esta festa sobreviva mesmo em meio ao cipoal-da-cultura-enlatada-dos-Herodes-da-mídia-modorrenta, pois assim canta a comitiva-esperança:
“No estandarte vai escrito
que ele voltará de novo
Que o rei será bendito ele nascerá do povo”

(Dedicado ao pai do Angelim, rei sem coroa, plantador de sonhos e jardins)

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