255 - SOBRE MUROS E PONTES

Fazia alguns bons janeiros que não via aquele gaudério.
Ainda estudante, cantador politizado, ele tinha dividido comigo o mesmo teto nos anos 80.
Me ajudava no Projeto Sopão, da Igreja. Fez campanha para o Brizola ao lado da nossa trupe.
Sua mãe, china-das-mais-prendadas, quando vinha dos pampas nos brindava com saborosos pratos tropeirísticos. Seus prazeres culinários eram tão bons que a gente dizia que aquilo era um aperitivo do céu.
Ao reencontrarmos novamente, ontem na fila do restaurante, fui logo puxando conversa nos moldes da consagrada hospitalidade gauchesca.
Estendi-lhe a mão e puxei da guaiaca um de meus bordões de marca própria:
“ Buenas tche! Primeira mão honesta que cumprimento hoje”!
Em tom sisudo, sem entrar na brincadeira e sem mostrar o riso da alegria do encontro, ele advertiu-me em tom energúmeno:
"Esta mão foi feita para reverenciar o Pai Eterno"!
Engoli em seco o petardo mas, na dúvida, mantive o charme. Ao invés de puxar outra frase em tom satírico, apresentei-lhe minhas palavras poético-solidárias:
“ Fiquei sabendo que sua mãe está lá com o papai do céu fazendo aquelas comidinhas boas que fazia pra gente aqui”.
Ele , com voz mais cavernosa ainda, ensaiou-me uma doutrinação:
“Não, não! Ela não morreu. Ela está dormindo no Senhor! Aguardando a ressurreição dos mortos. E lá no céu não tem dessas coisas aqui não!”
Percebi que ele tinha se convertido a uma dessas seitas fundamentalistas.
Antes que eu tivesse uma congestão de palavras, despedi-me do amigo , peguei meu prato e fui para a mesa onde alguns amigos me esperavam para vivenciar ali mesmo um pedacinho do céu.
Lembrei-me de quão tristes são as pessoas que fazem de suas palavras verdadeiras muralhas-que-separam.
Prefiro usá-las como pontes-que-unem.

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