278 - SOBRE GERUNDISMOS DA VIDA

Desculpando os gerúndios,
mas...
Estou viajando-mais-leve-ainda do que sempre viajei,
Estou trabalhando-menos-engravatado-ainda do que sempre trabalhei,
Estou frequentando-reuniões-burocráticas-ainda-menos do que sempre frequentei
Quando a aposentadoria vai chegando
A gente se entrega ao luxo de ser ainda mais sincero que já o somos
Afinal os chefes vão se escasseando, as bordunas já não conseguem nos assustar
E as ilusões da posse do pote perto do arco iris já vão mudando de cores...
Acima de tudo e de todos
Vamos chegando à conclusão que
Não precisamos pensar em carregar o peso do mundo
E muito menos querer salvar os pecadores do inferno
O corpo ingênuo aprende o que a alma sábia já sabe:
que os cemitérios estão cheios de pessoas insubstituíveis,
que o planeta continuará girando sem nós,
que o sol continuará brilhando sobre bons e maus,
que a chuva continuará caindo sobre justos e injustos,
e que no final das contas cada UM estará prestando contas ao Criador
Por isso
Estou sendo mais caseiro e menos viajor
Estou lendo menos Aristóteles e mais Agostinho
Estou ouvindo menos os cantos do Vandré e mais os causos do Rolando Boldrin,
Estou lendo menos jornais e mais Fernando Pessoa:

“...O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa,
de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa... “

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