289 - SOBRE POLENTA COM POLÍTICA

Nasci e cresci com polenta-e-música.
Lembro-me da mãe remexendo o tacho com sua colher-de-pau enquanto o pai sapecava um ponteado na violinha abençoada. Penso que é dali que adquiri óculos para ver que o momento de refeição é um ritual para abençoar o corpo, a alma e os sonhos.
Polenta-com-música. Sacramento com fim em si mesmo.
Hoje, aberta a temporada de caça aos votos do cidadão, sou convocado diuturnamente para rodadas onde se serve polenta-com-política.
O ritual nem de longe lembra a polenta da minha mãe.
A liturgia é um procedimento burocrático para encher o bucho e palitar os dentes afiados-para-o-bote.
O cenário musical nem de longe lembra a voz-da-viola-do-meu-velho.
Em seu lugar vejo as profecias demagógicas de Juscelino se cumprirem:
“ Se me virem dançando com mulher feia é porque a campanha já começou”.
Finalizando minha polentada:
Quando a mãe-e-o-pai nos serviam polenta-com-música a gente encerrava o ritual com um saboroso cafezinho.
Hoje, ao término da polenta-com-política o protocolo figadal exige que encerremos a ritualística com um eficiente Alka-Seltzer.


(Para a Lu, minha linda italianona, amiga de polenta e tarantela )

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