382 - SOBRE FINADOS E O NOSSO ENTARDECER

Um dos meus tantos sotaques líricos, dos quais não quero abrir mão, é aquele de ficar contemplando o pôr-do-sol nos dias em que o nosso imprevisível clima assim permite.
Não sei se é porque o entardecer me evoca reminiscências da infância, lá do interior de onde vim, ou se sua beleza, por si só, me traduz aos olhos a certeza de que o Astro-Rei foi buscar um novo dia. O fato é que ele é para mim uma parábola de nós mesmos, que a cada instante estamos indo embora como um pôr-do-sol.
Entardecer...Um espetáculo eivado de beleza, e tristeza...! Como ele, existem outras coisas que são belas na sua melancolia, e melancólicas na sua beleza: O Adágio de Albinoni que nos faz pairar acima do bem e do mal, o beijo da despedida que marca o prelúdio de uma saudade eminente, a vela que ilumina enquanto se dissolve em gotas... Em tudo está a presença silenciosa de duas irmãs xifópagas, inseparáveis e insuperáveis: a vida e a morte.
Bem rezava a sabedoria oriental “Quem ensinasse os homens a morrer, ensinaria-os a viver". Pena que nós peregrinos deste outro lado do planeta, nem sempre tenhamos sensibilidade para observar e absorver o fato de que, uma e outra, caminham dioturnamente ao nosso lado e se lançam em nossas entranhas alertando-nos da necessidade de vivermos, eternamente, nosso fugidio momento como se fosse nosso último fôlego.
“Carpe diem”, nos segredavam os poetas mortos. “Vivam com qualidade o momento que passa!”. De fato, os dias se esvaem pelas nossas mãos como areias do tempo. Há que se ter pressa para viver pois o “tempo não para no porto, não apita na curva, não espera ninguém”.
E é nesta busca da qualidade de vida que a morte tem seu principal papel pedagógico. Os olhos de quem a presenciou de perto serão diferentes de todos os outros. Quem já foi arranhado pelo grande mistério aprendeu a valorizar as coisas realmente essenciais. Os braços de quem deu abraços em um canceroso serão, para sempre, mais vitais que aqueles que se fecharam em si mesmos.

Por isso, enquanto vivos, sempre é tempo de aprender que mesmo em meio à tristeza de vermos nossos dias indo embora com o por do sol, é possível e necessário, usufruirmos a eternidade qualitativa da alegria:
“Nossos dias são preciosos, mas com alegria os vemos passando se no seu lugar encontramos uma coisa mais preciosa crescendo: uma planta rara e exótica, deleite de um coração jardineiro, uma criança que estamos ensinando, um livrinho que estamos escrevendo”...
Bom é ter em mente a filosofia de Camus: “O vôo dos pássaros ao meio dia é diferente ao entardecer”. Saber voar é preciso...viver e morrer também.

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