426 - SOBRE MEU ANIVERSÁRIO

Há tempos que sei que não posso ludibriar o tempo.
Então é aquele (neg)ócio: “Se não podes com teu inimigo, alia-te a ele”!
Fujo do conselho sacana de meus colegas de trabalho: “Use botox”!
Me escondo da lembrança pseudo-generosa da confraria: “O vinho mais velho é o melhor”!
Não me serve também o consolo, em tom alegre, dos meus filhos: “Pai... ! Você fez 54 anos, mas está com corpinho de 53...!"
Trato mesmo é de manter acesa a sabedoria dos monges medievais: “Se queres viver sempre jovem prepara-te para a velhice”.
Por isso, que há tempos, rezo a Deus-Senhor-do-tempo, uma prece:

Que o tempo não me deixe ranzinza,
Que o tempo não me deixe tentar regular a vida de ninguém,
Que o tempo não me deixe parar de brincar nas manhãs das crianças...
para, quando chegar o momento do lusco-fusco crepuscular,
este seja como o vôo do passaredo que embeleza as cores do entardecer.

Portanto, velhos camaradas, se vocês querem me presentear com um bom vinho, que seja com um daqueles envelhecidos-com-os-sabores-da-vida.

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