461 - SOBRE O HOMEM À PROCURA DE SI MESMO

Já era meia-noite, algumas sombras de minutos e alguns segundos de insônia...
Kauan chegou, como quem vem do nada, e perguntou que livro eu estava lendo. Disse-lhe secamente: “O homem à procura de si mesmo”.
Do alto de suas sátiras-sacanas, construídas ao longo de seus seis anos, ele replicou:
Ô papi! Quem escreveu deve ser um bobo, não é”?
Engoli em seco a repentina resposta e interpretei-a como sendo uma convocação para lhe contar minhas estórias para que ele pudesse dormir. Depois que ele já pairava nos braços da paz, inquietei-me a refletir sobre sua sapiência ingênua.
Ô papi! Quem escreveu deve ser um bobo, não é”?
É vero!!!
A gente quando criança vive intensos momentos de paraíso. Como ele vive!
As brincadeiras são eternas fruições de prazer...Os ares cotidianos são protegidos pelo afeto, pelo cuidado...Não há a palavra “stress” no vocabulário infantil...
Parece que a eternidade invadiu o tempo e plantou ali seu jardim de delícias. Mas a gente vai ficando adulto e, devagar, vai sendo expulso desse paraíso. Resta-nos então ficar peregrinando em busca do paraíso perdido...religiões, trabalhos, amores, rodas-vivas...
Em tudo que fazemos procuramos um pedacinho do tempo em que a gente era feliz e não sabia.
Ficamos , de fato, bobos, frente aos perigos que nos espreitam em cada esquina da existência. Tornamo-nos , diuturnamente, seres à procura de nós mesmos.
O Kauan , assim como eu, um dia também será expulso do seu paraíso , mas saberá que navegar é preciso...
E, tão bobo como eu, poderá peregrinar sabiamente nos devaneios de T.S. Eliot :
“E o fim de nossa viagem será chegar ao lugar de onde partimos. E conhecê-lo então pela primeira vez”.

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