515- SOBRE ONDE MORA A FELICIDADE



Sobre a felicidade, alvo-maior de nossa eterna busca, Vicente de Carvalho escreveu um dos mais belos poemas que conhecemos:

“Essa felicidade que supomos/ Árvore milagrosa, que sonhamos/Toda arreada de dourados pomos,/ Existe, sim: mas nós não a alcançamos/ Porque está sempre apenas onde a pomos/ E nunca a pomos onde nós estamos”.

O poeta compreendia o ser humano como um eterno insatisfeito.
Admiro o olhar perscrutador e espantoso do nosso “poeta do mar”. Quanta verdade-viva em sua visão de nossa complexidade!
É um alerta para não delegarmos a outrem a responsabilidade da nossa felicidade. É uma exortação a não transferimos nossas responsabilidades do presente para procrastinações futuras. Quanta verdade implícita para também entendermos um casamento!

Constantemente vemos quem, envolto em “sonhos-sem-chão”, reverbera falas apaixonadas sobre suas “caras metades” e sobre “seus pares ideais”...De fato, somos feitos de sonhos. De fato nós somos o que sonhamos. Porém, é preciso estar alerta! Sonhar sim, mas sem perder os pés do chão...Ouço palavras de Thiago de Mello, poeta que soube unir razão e sensibilidade:

“Sonhar, mas sem deixar nunca / que o sol do sonho se arraste / pelas campinas do vento. / Sonhar, mas cavalgando o sonho e inventando o chão / para o sonho florescer".

De fato , ninguém é uma ilha. Ninguém se basta. Porém, é preciso recordar sempre:
- não há noivo ou noiva que dê conta de ser a eterna fonte da felicidade;
- nenhum casamento resolve os desertos da solidão pelos quais, inevitavelmente, teremos que passar;
- transferir para nosso cônjuge a responsabilidade da felicidade é fazer os dois infelizes.
- Jamais devemos confundir individualidade com individualismo . Porém só pode ser feliz no casamento quem , primeiramente, é feliz consigo mesmo. Isso equivale a fazer coro com o poema de Shakespeare:

“... O tempo é algo que não volta atrás. / Por isso plante seu jardim e decore sua alma, /Ao invés de esperar que alguém lhe traga flores ...”

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